
Após o banho, Nina está em cima da cama esperando o pai para ajudá-la na missão de se vestir. Vasculhando na gaveta da cômoda colorida ele não conseguia encontrar o pé que completava o par de meias. Impaciente e pensando no relatório que tinha que terminar sem falta, ainda aquela noite, resolveu pegar qualquer uma mesmo.
– Pai essa meia não é igual a outra.
–Não tem problema filha. O importante é manter os pés aquecidos.
–Eu não quero uma meia diferente, quero duas iguais.
Ciente de que a pequena não se convenceria facilmente ele foi até a secadora de roupas na esperança de encontrar o par perdido. Achou diversas meias, mas nenhuma que casasse conforme o desejo da menina.
Pensou no que acontecia com as meias que somem das gavetas, tanques, máquinas de lavar, varais e cestos de roupa suja. Com ele não era diferente, por mais cuidadoso que fosse era comum não encontrar o par completo. O mistério maior era para onde elas fugiam?
De repente lhe veio uma lembrança de infância. O dia em que a mãe faxinava as gavetas e jogava fora as peças que não tinham mais uso. Pijamas puídos, bermudas com elásticos laceados e as notáveis meias sem cônjuge.
Era a oportunidade perfeita. Logo ele e os garotos da rua davam um destino para elas e os outros trapos. O Fabinho era quem confeccionava a pelota sob pena de ninguém mais jogar, já que acreditava que só ele tinha a manha de fazer direito, ou pelo menos uma bola mais próxima de algo redondo.
Mas onde se meteu essa danadinha. De volta ao quarto, o pai sabia que tinha que encontrar uma saída inteligente. Tentar convencê-la de vestir outro par de meias que não aquele cor-de- rosa seria uma batalha injusta, para ele obviamente.
Como todo pai que se preze, deve ser muito esperto e saber sair de qualquer situação difícil. Ainda mais que não está na hora de Nina descobrir que ele não é o herói que ela fantasia. Então resolveu matar dois coelhos com uma cajadada só. E de volta ao quarto emendou.
–Nina, o papai já contou aquela historinha do reino encantando das meias fujonas.
– Não.
Existe um lugar onde todas as meias que não encontramos mais estão reunidas. Aquelas que fogem primeiro ficam comprometidas em buscar o par que ficou para trás em outra oportunidade. O principal motivo de elas fugirem é porque estavam cansadas de serem usadas por crianças que não lavavam os pés direito. Um dia se reuniram e resolveram fugir de casa...
Durante a narrativa a pequena adormeceu. Aliviado por ter conquistado mais essa vitória, o pai numa última tentativa, buscou pela peça no fundo da gaveta e felizmente a encontrou. Num devaneio que o fez rir de si mesmo interrogou:
–Aonde a senhorita pensa que vai?
Com todo cuidado vestiu os pezinhos da filha e correu para a pilha de papéis que impacientemente esperava na mesa.
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