
Era tão correto que fazia questão de comprar além dos itens necessários só para não deixar o atendente da venda sem troco. Não julgava certo comprar apenas um pacote de bolacha e pagar com uma nota de R$ 50. Onde já se viu?
Sempre oferecia o lugar no ônibus logo que percebia uma senhora com criança no colo, idoso, gestante ou pessoas com a mobilidade reduzida. Em alguns casos não ouvia nem um muito obrigado como recompensa pelo educado ato.
Declarava o imposto de renda no prazo estabelecido pelo fisco e assim era com o IPTU, água, luz, telefone e contas em geral. E nem por isso recebia desconto, já que pagar em dia é obrigação. Jamais tocou a direção do veículo embriagado. Se tinha para o táxi, bem, se não, aguardava o sol raiar e trazer-lhe a sobriedade de volta.
Ele não se sentia a vontade para mudar a estação de rádio quando estava tocando Bob Dylan. Não conhecia o trabalho do artista, mas era como se comete algum tipo de heresia. Tinha o maior cuidado ao fazer piadas, pois não queria correr o risco de parecer politicamente incorreto.
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Na sexta-feira, saltou do coletivo e se encaminhava para o trabalho que ficava a duas quadras dali. O movimento era intenso. Ninguém queria ter que alongar o último dia de trabalho com horas extras, pelo menos a maioria.
No vai e vem dos passos apressados, no início da manhã, uma nota de R$ 100 reais reluzia no chão, artigo raríssimo, principalmente naquela altura do mês. O homem pegou o dinheiro e angustiado buscava entre os transeuntes o dono da garoupa.
Erguendo a nota ele perguntou se era de alguém. Pelo menos oito se diziam o pai da criança. O nosso herói não teve dúvidas e assim como o rei Salomão pensou em dividir aquela belezinha azul. Mas diferente da mãe que recusou a maternidade para não ver o filho morto, todos sem exceção, insistiram em ter a guarda da nota. Resultado. Ela encontrou oito novos lares.
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