quarta-feira, 8 de junho de 2011

Bons tempos


Pelo menos uns quinze. Treze para ser menos exata. Aglomerados na portaria, os meninos negociam com o porteiro algum tipo de “relaxamento” nas regras do condomínio. Parece que teve acordo. Com o frio que faz nesta época do ano é de se espantar que as crianças tenham disposição para brincar ao relento, talvez me surpreenda por ter esquecido como foi um dia divertido brincar mesmo com o frio cortante.

Não lembro onde, se num conto, filme, história contada; uma senhora relatava que estava feliz, pois desde a infância não tinha oportunidade de se molhar na chuva e finalmente estava feliz por finalmente, após todos aqueles anos poder fazê-lo.

Na semana passada estive no Sul do Estado e tanto na ida como na volta lembrei como corria nos trilhos da ferrovia sem desequilibrar, era um gesto automático, aliás, todas as crianças que retornavam da escola faziam o mesmo e era a coisa mais natural do mundo. Por que vamos perdendo nossos superpoderes com o passar dos anos?

Outro dia minha mãe relatava a facilidade com que se embrenhava nos matos para caçar quando moleque, ela mesma se retrata assim. Hoje, coincidentemente, apesar de morar na cidade, a casa fica próxima de uma área verde, dona Fátima reconhece que se precisasse entrar num matagal novamente não teria coragem, muito menos de matar passarinhos, um hobby de infância (politicamente e ambientalmente incorreto). Agora ela afirma ser capaz de agredir alguém que maltrate qualquer bichinho perto dela, virou protetora honorável em tempo integral.

Mas menos de duas horas depois o silêncio voltou a reinar. Vamos aos prováveis culpados. Mães que chamam para o jantar e banho, não necessariamente nesta ordem. Deveres escolares que clamam para ser resolvidos, na minha época a popular: tarefa, o porteiro que resolveu voltar atrás no trato ou ainda o videogame e a internet. O frio é que não foi o vilão desta história.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Poderosa chefona


Que nós mulheres estamos nos destacando cada vez mais nos mais variados setores da sociedade não há dúvida. O que me chateia e entristece é saber que uma garota pode ser a chefe de uma quadrilha que tocava o terror em um bairro de Porto Alegre (RS). Além de se tratar de uma moça que acabou de sair da adolescência, 18 anos, a infeliz está grávida.

Estatísticas recentes apontam que um número maior de mulheres está se tornando alcoólatras, já que o organismo feminino é mais propenso a desenvolver o alcoolismo (razões biológicas mesmo). E o número de novos fumantes também já é maior entre o público feminino. E agora.

O futuro que essa moça traçou para si tem todos os ingredientes para ser miserável. Daqui a pouco essa criança nasce e ela estará encarcerada. No Brasil, as mães ficam um determinado tempo com os bebês e será mais golpe essa separação. Depois de cumprir a pena e tentar refazer a vida, caso seja a intenção dela, ainda há ficha suja. Quem lhe dará oportunidade?

Digamos que mesmo assim ela consiga um emprego decente e a guarda da filha. Recomeçar não será fácil e se nesse ínterim não tiver apoio e uma cabeça boa certamente sucumbirá à tentação de retornar a vida do crime. Afinal se realmente chefia aquele bando era porque deveria ter sido seduzida pelo “glamour” do poder. Certamente se sentia poderosa. E só o tempo dirá.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

União homoafetiva em pauta


Gravura de Esther Rivuelta - Sí, Quiero, de 2005

Na primeira sessão do STF que ocorreu nesta quarta-feira (4) o voto do ministro Ayres Britto foi favorável a união homoafetiva. Iniciado o debate os ânimos estão exaltados tanto entre aqueles que estão de acordo como também os que estão contra.

Com muito bom humor teve gente que acusou os ministros de estarem legislando em causa própria, outros menos esclarecidos dizem que a legalização da união civil de casais homossexuais pode aumentar os casos de pedofilia, santa ignorância.

O assunto vai dar muito pano para manga ainda, mas isso é bom. A parada da diversidade, em São Paulo, conta cada vez mais com participantes, mais um motivo para não fecharmos os olhos e fazer de conta que homossexualidade não existe, é um modismo, fase, ou na minha casa isso nunca vai acontecer, como diria Bolsonaro.

Toda a sociedade ganhará com a união civil homossexual. Casais gays poderão adotar e diminuir o número de crianças que abarrotam os orfanatos país afora. Heranças serão destinadas aos parceiros e não apenas aos familiares que muitas vezes desaprovavam o relacionamento daquele parente que julgavam “pervertido, desajustado, sem vergonha, depravado, desvirtuado, transviado... etc.”. Sem contar com a inclusão dos parceios nos planos de saúde e imposto de renda.

Muitos alegam que será preciso mexer na Constituição, que não proíbe o casamento homoafetivo, mas daí vem as instituições religiosas afirmando que casamento seria só entre homem e mulher. Se for mesmo necessário, já que a dita cuja foi escrita por políticos, que eles tenham a decência de mudá-la. Mas no Brasil, já viu, seria mais um século para se mudar alguma coisa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Meia verdade


Após o banho, Nina está em cima da cama esperando o pai para ajudá-la na missão de se vestir. Vasculhando na gaveta da cômoda colorida ele não conseguia encontrar o pé que completava o par de meias. Impaciente e pensando no relatório que tinha que terminar sem falta, ainda aquela noite, resolveu pegar qualquer uma mesmo. ­­

– Pai essa meia não é igual a outra.

–Não tem problema filha. O importante é manter os pés aquecidos.

–Eu não quero uma meia diferente, quero duas iguais.

Ciente de que a pequena não se convenceria facilmente ele foi até a secadora de roupas na esperança de encontrar o par perdido. Achou diversas meias, mas nenhuma que casasse conforme o desejo da menina.

Pensou no que acontecia com as meias que somem das gavetas, tanques, máquinas de lavar, varais e cestos de roupa suja. Com ele não era diferente, por mais cuidadoso que fosse era comum não encontrar o par completo. O mistério maior era para onde elas fugiam?

De repente lhe veio uma lembrança de infância. O dia em que a mãe faxinava as gavetas e jogava fora as peças que não tinham mais uso. Pijamas puídos, bermudas com elásticos laceados e as notáveis meias sem cônjuge.

Era a oportunidade perfeita. Logo ele e os garotos da rua davam um destino para elas e os outros trapos. O Fabinho era quem confeccionava a pelota sob pena de ninguém mais jogar, já que acreditava que só ele tinha a manha de fazer direito, ou pelo menos uma bola mais próxima de algo redondo.

Mas onde se meteu essa danadinha. De volta ao quarto, o pai sabia que tinha que encontrar uma saída inteligente. Tentar convencê-la de vestir outro par de meias que não aquele cor-de- rosa seria uma batalha injusta, para ele obviamente.

Como todo pai que se preze, deve ser muito esperto e saber sair de qualquer situação difícil. Ainda mais que não está na hora de Nina descobrir que ele não é o herói que ela fantasia. Então resolveu matar dois coelhos com uma cajadada só. E de volta ao quarto emendou.

–Nina, o papai já contou aquela historinha do reino encantando das meias fujonas.

– Não.

Existe um lugar onde todas as meias que não encontramos mais estão reunidas. Aquelas que fogem primeiro ficam comprometidas em buscar o par que ficou para trás em outra oportunidade. O principal motivo de elas fugirem é porque estavam cansadas de serem usadas por crianças que não lavavam os pés direito. Um dia se reuniram e resolveram fugir de casa...

Durante a narrativa a pequena adormeceu. Aliviado por ter conquistado mais essa vitória, o pai numa última tentativa, buscou pela peça no fundo da gaveta e felizmente a encontrou. Num devaneio que o fez rir de si mesmo interrogou:

–Aonde a senhorita pensa que vai?

Com todo cuidado vestiu os pezinhos da filha e correu para a pilha de papéis que impacientemente esperava na mesa.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Na minha opinião...


Sempre que um post de um blog, qualquer desses da vida, me chama atenção dou aquela espiada nos comentários, aliás, essa é a parte mais interessante. Tinha um professor na faculdade que sempre dizia que a interpretação, leitura, entendimento ia de acordo com a bagagem do sujeito. É verdade.

Mas o mais chocante é que uma simples opinião, desabafo pode tomar proporções gigantescas e batalhas homéricas são travadas, muitas vezes por causa de uma palavra mal interpretada, ou coisa do tipo.

Sabe aquela história de procurar “chifre na cabeça de cavalo”. Em um blog que descobri recentemente e que gostei muito, um pai faz um triste relato de um caso de racismo sofrido pelas filhas em um restaurante no Rio de Janeiro.

A gerente do estabelecimento “enxotou” as meninas por entender que se tratava de crianças de rua. Acontece que as pequenas estavam comemorando o aniversário de uma delas e por um motivo qualquer se ausentaram do ambiente. Quando retornaram foram abordadas, segundo o pai de maneira agressiva e grosseira.

O pai, que é jornalista, fez questão de divulgar o fato na mídia carioca, o que rendeu a demissão da gerente do local. Indignado também postou toda a história no blog pessoal e no site. O problema é que tem gente que parece não entender o que está escrito, ou não consegue juntar as peças, não sei.

E então tem início a celeuma. Alguém comentou que achava exagerada a atitude do pai de levar o caso para a imprensa e processar a casa pelo mau atendimento para com suas princesinhas. Daí vem outro e diz que aquele espaço era, sim apropriado para dizer o que estava entalado na garganta, no caso o ato racista da mulher, já que as crianças estavam bem vestidas, e, por isso, não poderiam ser confundidas com pedintes.

Então vem outro e diz que ele não se compadece pelos muitos que meninos de rua que são “enxotados” todos os dias dos shoppings, restaurantes, praças e portas de igreja. Mas, daí vem outro que acha que o que não pode acontecer é ser incomodado quando faz sua refeição, pois seria o fim do mundo ser importunado por esse tipo de gente. Até que alguém diz que só quem viveu na pele sabe o que é sofrer preconceito e outro reclama que não é preciso subir numa montanha para ver que ela é alta e por aí vai...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O homem que dividia




Era tão correto que fazia questão de comprar além dos itens necessários só para não deixar o atendente da venda sem troco. Não julgava certo comprar apenas um pacote de bolacha e pagar com uma nota de R$ 50. Onde já se viu?

Sempre oferecia o lugar no ônibus logo que percebia uma senhora com criança no colo, idoso, gestante ou pessoas com a mobilidade reduzida. Em alguns casos não ouvia nem um muito obrigado como recompensa pelo educado ato.

Declarava o imposto de renda no prazo estabelecido pelo fisco e assim era com o IPTU, água, luz, telefone e contas em geral. E nem por isso recebia desconto, já que pagar em dia é obrigação. Jamais tocou a direção do veículo embriagado. Se tinha para o táxi, bem, se não, aguardava o sol raiar e trazer-lhe a sobriedade de volta.

Ele não se sentia a vontade para mudar a estação de rádio quando estava tocando Bob Dylan. Não conhecia o trabalho do artista, mas era como se comete algum tipo de heresia. Tinha o maior cuidado ao fazer piadas, pois não queria correr o risco de parecer politicamente incorreto.

***

Na sexta-feira, saltou do coletivo e se encaminhava para o trabalho que ficava a duas quadras dali. O movimento era intenso. Ninguém queria ter que alongar o último dia de trabalho com horas extras, pelo menos a maioria.

No vai e vem dos passos apressados, no início da manhã, uma nota de R$ 100 reais reluzia no chão, artigo raríssimo, principalmente naquela altura do mês. O homem pegou o dinheiro e angustiado buscava entre os transeuntes o dono da garoupa.

Erguendo a nota ele perguntou se era de alguém. Pelo menos oito se diziam o pai da criança. O nosso herói não teve dúvidas e assim como o rei Salomão pensou em dividir aquela belezinha azul. Mas diferente da mãe que recusou a maternidade para não ver o filho morto, todos sem exceção, insistiram em ter a guarda da nota. Resultado. Ela encontrou oito novos lares.

domingo, 17 de abril de 2011

Pelo direito de barbarizar em paz


Notícia publicada pelo site Band news da conta de mais um caso de agressão causada pela intolerância. O fato ocorreu em São Paulo, cidade que possui grande diversidade de culturas e abriga gente do mundo inteiro. Esse fato mostra que nós brasileiros não vivemos tão harmonicamente assim como bradamos aos quatro ventos.

O que acho mais difícil de compreender é como um brasileiro que é fruto da maior mistura desse planeta se sente a vontade e no direito de apontar o outro e se colocar numa situação de “ser superior”, como se de fato existisse alguém melhor.

O que se passa na cabecinha dessa gente ignorante, desses seres irracionais? Deve ser algo do tipo: nós que não sabemos de onde viemos e nem pra onde vamos queremos a liberdade para nos expressar contra tudo aquilo que não aceitamos e, para demonstrar esse ódio por meio agressões nas modalidades verbal, física e psicológica.

Estamos numa democracia, num país livre. Como cidadão de bem, pagador de impostos luto pelo direito de exterminar no planeta todos aqueles que me causam ojeriza. Estão nesse grupo negros, viados, nordestinos, judeus, ou seja a escória da sociedade.

Não sei se tenho ascendência africana, talvez haja sangue negro correndo em minhas veias. Mais um motivo para não querer olhar no espelho. Minha bisavó pode ter sido judia, mas como não sei nada sobre minha árvore genealógica e nem quero saber, também tenho nojo desse tipo de gente.

Talvez meu pai, irmão, tio ou filho, neto que eu venha a ter seja gay, mais um motivo para eliminá-los o quanto antes da face da terra. Nordestinos nem sei por que eu os odeio mais sinto no meu íntimo que há um motivo justo para extirpá-los deste mundo. Emos também não são bem-vindos. Mas como o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) disse com educação ficamos livres disso.