
Alguém já disse para não deixar para amanhã o que você não vai fazer nunca. Uma grande pilha de papéis esperava pela boa vontade de Luciana que não chegava nunca. Era uma furada e tanto trazer trabalho para casa, mas não tinha outro jeito. Todos os colegas faziam a mesma coisa e ela não podia se dar ao luxo de ser diferente, afinal a empresa poderia entender que ela não estava tão compromissada quanto os demais, e isso, poderia resultar em uma prematura demissão. Bem que eu podia ganhar na loteria e me livraria de vez de ter que trabalhar, pensou.
Costumava apostar pelo menos duas vezes por semana em uma casa lotérica que ficava próxima ao trabalho. Quem sabe a sorte lhe batesse a porta um dia. Se isso acontecesse naquela noite chuvosa, ela acharia graça dos trajes da mulher. Meias, cada uma de uma cor; cabelos desgrenhados, o velho pijama descorado e manchado de café pela desajeitada contadora.
Ligava a TV, para ter a sensação de que estava acompanhada e como a noite prometia ser longa foi até a cafeteira buscar mais uma caneca da bebida. Nos seriados, filmes e novelas o café sempre estava quente, mas não na sua casa. Desastrada de mão cheia, os objetos criavam vida e caiam ao menor movimento. Mais uma mancha para a coleção seguida de um palavrão.
O relógio na parede da cozinha marcava 11h33. Lembrou que não havia apostado naquela semana. Sempre jogava no 33. Amanhã aposto sem falta. Na mesa os papéis estavam impacientes e ela sem coragem. Pegou o controle remoto e parou em filme que queria ver há muito tempo, mas sempre pegava pela metade. Vou locar o DVD no fim de semana. Antes de terminar a comédia, adormeceu.
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